ENTREVISTA COM RICARDO HANTZSCHEL

Continuamos hoje a série de entrevistas especiais com grandes nomes da fotografia. Na primeira semana curtimos as histórias da carreira de Roberto Guglielmo e hoje continuamos a série com Ricardo Hantzschel, fotógrafo que coordena o premiadíssimo projeto Cidade Invertida.

Você sempre trabalhou muito com câmeras pinhole, pesquisando e descobrindo possibilidades criativas para esse tipo de suporte fotográfico, e desde 2006 coordena o projeto cidade invertida que capta imagens através de um trailer adaptado que funciona como uma “pinhole gigante”.Conta para gente um pouco de como foi a criação desse projeto que já foi diversas vezes premiado pelo governo do estado de São Paulo, quais foram as maiores dificuldades e motivações para colocá-lo em prática e que tipo de adaptações o trailer sofreu para estar apto a isso.
Hantzschel_Em 2004 recebi como doação das belgas, Christine Feltem e Véronique Massinger um trailer, que foi adaptado como câmera obscura e laboratório fotográfico. Com ele e ao redor dele foi criado o projetoCidade Invertida, ação educacional que utiliza o fascínio pela imagem como instrumento de autoconhecimento, auto estima e cidadania e que em novembro completa cinco anos. Nossa primeira oficina ocorreu em 2006 num movimento comunitário no Campo Limpo. A adaptação do trailer foi possível com a conquista do primeiro lugar no edital PAC Ministério da Estadual. O que motiva a mim e a equipe do Cidade, hoje composta por oito integrantes, é a possibilidade de alfabetizar visualmente o nosso público seja em favelas, comunidades de bairro, escolas, museus, festivais fotográficos, etc. A proposta é fazer um percurso histórico, técnico, poético e prático pela fotografia, com a intenção de despertar no frequentador a criatividade e ao mesmo tempo a crítica em relação a imagem.

Além de oferecer oficinas para jovens de comunidades carentes, e já ter participado de importantes eventos como o Paraty em Foco e a Virada Cultural em São Paulo, sempre com inscrições gratuitas, agora vocês também oferecem cursos voltados não só para quem tem interesse por fotografia como para educadores poderem aprender e aperfeiçoar técnicas fotográficas para depois transmitir os novos conhecimentos para seus alunos. A partir de quando o projeto começou a oferecer oficinas especiais para educadores e quais são suas expectativas para o futuro desse trabalho.
Hantzschel_Como no início fazíamos ações mais pontuais, eu ficava com a sensação de deixar um pouco do nosso objetivo para trás. A iniciativa de montar um curso para educadores partiu da idéia de uma maior multiplicação do conhecimento, com a qualificação de professores na utilização da imagem como
instrumento didático, nas mais variadas disciplinas. Com essa proposta
o projeto venceu dois editais importantes do poder público na seqüência, o que possibilitou a implantação sólida do Cidade Invertida entre 2007 e 2010, quando, a pedido das Casas de Cultura da Eletropaulo, montamos um curso de 10 aulas e 40h/aula para jovens de seis unidades da capital e do interior. A capacidade de adaptar os conteúdos e a duração dos cursos em função do público atendido tem sido um dos nossos diferenciais.

E agora as duas últimas perguntas são comuns a todos os entrevistados:
Queremos saber como foi o seu primeiro contato dando aulas de fotografia e o que te move para continuar desenvolvendo esse trabalho como educador.

Hantzschel_Meu primeiro contato com a docência, foi no Museu Lasar Segall 1992, num curso de dois meses para iniciantes. Depois houve uma continuação
numa oficina mais avançada em 1993.

E para finalizar, queremos saber qual foi a situação mais inusitada que você passou na sua carreira como fotógrafo,dentro ou fora da sala de aula.
Hantzschel_Uma das muitas situação inusitada que vivi, foi fotografando no presídio do Carandiru, no que viria a ser o ensaio “Vestígios do Carandiru” (CCSP e MARP em 2004. Galeria do CJ Nacional em 2007). Fiquei tão absorto registrando o pavilhão 8 (vazio, mas todo “montado”na gíria carcerária, isto é, com os pertences e decoração dos detentos ainda intacta) que perdi o horário de encerramento do expediente e fui trancado lá dentro. Para minha sorte, depois de 40 minutos, já bastante preocupado, me lembrei que não tinha entregue meu celular, como deveria na entrada e essa foi minha salvação. Liguei para a assessoria de imprensa do sistema carcerário, expliquei a situação e fui finalmente solto entre risos e piadas. Uma experiência singular, para dizer o mínimo.

Para completar a série ainda teremos as entrevistas com Alexandre Keese e Thales Trigo, aguardem!

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